Após atravessar as encostas frias da Montanha Silenciosa, Elara dirigiu-se para o Lago das Memórias Profundas, uma vasta extensão de águas serenas escondida no coração do Vale Nymira. Segundo os antigos manuscritos, o Fragmento da Água repousava no fundo do lago, protegido por um espírito ancestral chamado Narelis, guardião das emoções e da verdade esquecida.
Ao chegar à margem, Elara sentiu o ar tornar-se mais denso, carregado de magia antiga. A superfície do lago era tão límpida que refletia não apenas a floresta ao redor, mas também os pensamentos e lembranças de quem se aproximasse. Ela sabia: ali, ilusões poderiam se tornar armadilhas.
Elara retirou de sua bolsa um pequeno frasco contendo Essência de Verbena — usada para manter a mente clara — e bebeu algumas gotas antes de se aproximar da água. Tocou a superfície com a ponta dos dedos e recitou:
“Pelas marés da memória, pela corrente do tempo,
Que a verdade venha, e o fragmento desperte.”
As águas se agitaram suavemente e, no centro do lago, formou-se uma ilha feita de névoa. Elara embarcou numa pequena canoa feita de folhas entrelaçadas, conjurada por magia, e navegou até a ilha. Ali, de pé sobre uma rocha de cristal líquido, aguardava Narelis.
O espírito tinha olhos feitos de água e um corpo que fluía como correnteza. Sua voz ecoou dentro da mente de Elara:
— A água revela, mas também esconde. Para receber o Fragmento, deve enfrentar aquilo que enterrou em seu coração.
Narelis ergueu os braços e o lago transformou-se num enorme espelho. Diante de Elara, surgiu a imagem de si mesma, mais jovem, nos tempos em que ainda era aprendiz de magia.
Mas ao lado de sua versão jovem, estava outra figura: Selion, o mago que outrora fora seu mentor… e traidor.
Ele aparecia como era no passado — gentil, poderoso, carismático. Mas Elara sabia o que ele havia feito. Selion tentara corromper a magia da floresta usando o Cristal do Coração Verde muitos anos atrás, e foi banido por isso. Ela havia ajudado a detê-lo. Ou assim pensava.
A imagem de Selion olhou diretamente para ela, sorrindo de forma melancólica.
— Ainda me teme, Elara? Ou teme o que você precisou se tornar para me vencer?
Ela cerrou os punhos. O lago não mentia: aquilo era sua dor, sua culpa. E agora ela entendia: Selion havia retornado. A névoa, a corrupção, a convocação do Círculo — tudo se conectava. Ele era a sombra que ameaçava o equilíbrio.
Com o coração firme e a mente clara, Elara encarou o reflexo.
— Não temo meu passado. Ele me moldou, mas não me define.
As águas ao redor se acalmaram. A figura de Selion desvaneceu e, no lugar da rocha de cristal, surgiu uma concha prateada. Dentro, o Fragmento da Água, em forma de gota cintilante, repousava silenciosamente.
Narelis sorriu, e sua voz ecoou com serenidade:
— Passaste pela corrente da verdade. Que tua coragem flua como o rio e seja firme como a maré.
Elara guardou o fragmento ao lado do da Terra. Dois dos cinco agora estavam com ela — mas o tempo estava se esgotando.
Epílogo: A Torre de Sombras
Nas terras esquecidas do Norte, além dos confins da floresta, uma torre negra de pedra adormecia sob nuvens escuras. No topo dela, Selion, agora corrompido por uma força desconhecida, observava a floresta encantada através de um espelho de obsidiana.
— Elara… sempre foi você — murmurou, os olhos brilhando em vermelho profundo. — Mas desta vez, não serei eu quem perderá.
O vento uivava como um aviso.


