Com os fragmentos da Terra e da Água guardados com segurança, Elara sabia que sua próxima jornada a levaria para o domínio mais impiedoso e instável dos elementos: o Fogo.
Segundo os registros antigos, o Fragmento do Fogo repousava nas profundezas da Forja de Myrrak, uma cratera vulcânica viva onde o fogo não apenas queimava, mas possuía consciência. Era lá que os antigos forjadores elementais moldavam armas para os Guardiões do Mundo, usando chamas encantadas pelo próprio espírito da destruição e da renovação.
Elara partiu antes do amanhecer, levando consigo uma túnica tecida com fios de Salamandra, resistente ao calor, e um amuleto de resfriamento feito com gelo eterno das cavernas do Norte. A trilha até Myrrak era ladeada por campos de cinzas e montanhas de rochas rubras. O ar tornava-se mais quente a cada passo, e o chão tremia sob seus pés como se algo respirasse nas profundezas.
Ao chegar à beira da cratera, uma voz profunda ecoou das chamas:
— Fogo não é dado. Ele é conquistado. Mostre tua chama interior… ou seja consumida.
Da lava surgiu Kareth, o Guardião Flamejante, um ser feito de brasas vivas e olhos dourados. Ele ergueu uma espada de magma, que brilhava com runas ancestrais, e avançou.
Elara não empunhava lâminas — sua força era a sabedoria e a magia da natureza. Mas ali, no domínio do fogo, palavras suaves não seriam suficientes. Ela precisaria provar seu poder de outra forma: com equilíbrio.
Ela invocou uma tempestade de pétalas de Verbena flamejante, canalizando a energia de plantas que cresciam ao lado da lava. Suas mãos dançaram no ar, desenhando círculos de luz que absorviam o calor ao redor. Não tentou vencer Kareth — tentou ouvi-lo.
— O fogo consome, sim. Mas ele também renasce. Queime, mas permita que algo novo surja das cinzas — gritou ela, com voz firme.
Por um instante, Kareth hesitou.
Sua forma começou a perder rigidez e, aos poucos, foi se transformando em uma figura mais serena, quase humana, feita de cristal incandescente. Ele então cravou a espada de magma no chão, que se desfez em brasas, revelando no centro um pequeno núcleo flamejante: o Fragmento do Fogo, pulsando como um coração recém-desperto.
— O fogo reconhece a chama que não destrói, mas transforma — disse Kareth. — Leve-o, Elara. Mas saiba: com ele, virão escolhas difíceis. O fogo testa o coração daqueles que ousam conduzi-lo.
Elara guardou o fragmento com reverência. Três elementos agora estavam com ela. A cada fragmento, o vínculo entre seu espírito e as forças da natureza se tornava mais profundo… mas também mais perigoso.
Enquanto isso… na Torre de Sombras
Selion, observando pelo espelho sombrio, sentiu o calor do Fragmento do Fogo ser despertado.
— Três já são dela… tsk. O tempo da delicadeza passou — rosnou ele.
Ele estendeu a mão sobre uma runa negra e invocou um ser feito de fumaça e ossos: O Ceifador dos Ventos, guardião corrompido do Fragmento do Ar.
— Voe até ela. Antecipe-se. Leve o Vento antes que Elara possa alcançar. E se necessário… destrua.
As nuvens sobre a torre giraram em espiral, e um estrondo de trovão rompeu o céu.


